Discursos do Planalto empoderam exploradores ilegais e ampliam os crimes contra a Amazônia. Queimadas são a parte visível

Mais uma vez, nosso país ganhou o noticiário mundial por uma razão nada elogiosa. Imagens da floresta amazônica em chamas fizeram arrepiar a espinha de todos os que têm ideia da importância da região para o equilíbrio ambiental em todo o planeta.


Quando o dia se fez noite na Grande São Paulo, no início de tarde do dia 22 de agosto, fato explicado posteriormente pelo encontro de partículas de fuligem vindas das queimadas na Amazônia com uma frente fria, o que parecia apenas parte de um noticiário distante tornou-se um perigo bem próximo e concreto.


Rapidamente, alguns apressaram-se a dizer que as queimadas ocorrem todos os anos, que a culpa é da estiagem, que a imprensa está exagerando etc. etc. “Tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o País”, justificou em seu Twitter o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.


De fato, os incêndios na região não são fato novo, mas os números mostram que em 2019 a situação está fugindo do controle. As queimadas no Brasil aumentaram 82% de janeiro a agosto de 2019, se comparadas a igual período de 2018, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), gerados com base em imagens de satélite.


Pouco antes do problema virar manchete mundial, no dia 2 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o presidente do órgão, o físico Ricardo Galvão, acusado de espalhar “mentiras”. Quando o bafo quente das queimadas chegou a Brasília, a explicação do presidente da República foi igualmente exótica: “O crime existe e nós temos que fazer o possível para que não aumente, mas nós tiramos dinheiro de ONGs, repasses de fora, 40% ia para ONGs, não tem mais. De modo que esse pessoal está sentindo a falta de dinheiro. Pode estar havendo, não estou afirmando, a ação criminosa desses ‘ongueiros’ para chamar a atenção contra minha pessoa contra o governo do Brasil”, afirmou (Folha de S. Paulo, 25/8/2019).


O que explica

Para os especialistas, a disparada no número de focos de incêndio na região amazônica nos primeiros meses deste ano pode ser explicada pela conjunção de vários fatores.


De acordo com nota técnica elaborada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o aumento tem relação direta com a ação humana e a prática de “limpar” áreas recém-desmatadas e outros tipos de terreno. O estudo indica que o desmatamento é o provável fator responsável por este cenário, e não a estiagem, como defendeu o ministro do Meio Ambiente.


“A relação entre os focos de incêndios e o desmatamento registrado do início do ano até o mês de julho mostra-se especialmente forte. Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento. Estes municípios são responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho”, aponta a nota do Ipam.


As queimadas são usadas para “limpar o terreno” depois da derrubada das árvores, em geral para que a terra seja utilizada por atividades econômicas como cultivo agrícola ou pastagem para gado.


Segundo denúncias de órgãos de imprensa da região Norte, no dia 10 de agosto, grupos de ruralistas da região de Altamira, no Pará, se organizaram pelo WhatsApp para lançar o “Dia do Fogo”, data em que ateariam fogo na floresta, para demonstrar força e impor a permanência ilegal em áreas preservadas.


A ação dos madeireiros e pecuaristas ilegais vem sendo fortalecida pelos discursos do presidente Bolsonaro contra o meio ambiente, as reservas de proteção indígenas, quilombolas e assentamentos da reforma agrária. "Estão faltando fiscais e os que sobraram se sentem perseguidos", afirma o coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace, Márcio Astrini, em reportagem publicada pelo Portal UOL em 21/8/2019. Ele calcula em 30% a redução das operações de combate ao desmatamento pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) neste ano e queda de 65% na aplicação de multas. "É uma mensagem do governo aos desmatadores, que estão se sentindo empoderados", diz. A matéria traz uma didática explicação sobre os elementos que compõem o cenário de chamas da Amazônia e é uma boa dica de leitura sobre o assunto (https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2019/08/21/o-que-esta-acontecendo-na-amazonia-ambientalistas-explicam.htm)


Avanço do agronegócio e danos imediatos

Para o pesquisador e professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) Pedro Côrtes, o fenômeno da disparada nas queimadas deve ser relacionado com o avanço do agronegócio na região.


“Pela extensão de muitas dessas queimadas, significa que não é uma atividade do pequeno agricultor. São grandes extensões que demandam organização. É preciso ter uma equipe, equipamentos, acesso a determinadas áreas”, alerta Côrtes (Brasil de Fato, 21/8/2019). “Efetivamente, há uma participação grande de grupos organizados com recursos financeiros mais vultosos para promover esse tipo de desmatamento. Não é o desmatamento de um pequeno produtor que quer fazer uma roça ou ter uma pequena área para criação de gado. São grandes extensões que vem sendo desmatadas”, prossegue.


E os danosos impactos do assustador aumento das queimadas na região amazônica vão de grandiosos – como o aumento do aquecimento global e mudanças avassaladoras no clima – até efeitos imediatos, como aumento no preço da energia hidrelétrica no Brasil. “Os incêndios na Amazônia diminuem o número de chuvas produzidas e, consequentemente, o volume de água nos reservatórios que produzem energia hidrelétrica”, explica Côrtes.


Interesse internacional

É inegável a importância da Amazônia para o equilíbrio ambiental do planeta. Por outro lado, também é incontestável que a política do atual governo federal é predatória e irracional, francamente favorável aos grandes madeireiros e pecuaristas ilegais.


No entanto, é preciso estar atento às vozes de defesa da Amazônia que ecoam lá fora. Há movimentos honestos e preocupações legítimas, evidentemente. Mas a região possui uma inimaginável riqueza em recursos minerais e na biodiversidade, que acende interesse nada solidários das grandes empresas de exploração de minérios, da indústria farmacêutica e de cosméticos.


Assim, proteger a Amazônia, antes de tudo, é tarefa dos movimentos sociais do nosso país, de preservação dos povos da floresta e de defesa da soberania nacional.