Em defesa da formação tecnológica, da autonomia docente e da educação pública de qualidade
As reflexões e manifestações que fundamentam este artigo foram expressas por professoras e professores das FATECs durante o primeiro dia da 18ª Semana de Práticas e Atualizações Pedagógicas (SPAP), evento promovido pela CEGESG, de 4 a 6/2/2026. Longe de se tratar de falas isoladas, tais intervenções revelam um sentimento coletivo de preocupação, indignação e alerta diante dos rumos assumidos pela recente reestruturação curricular dos cursos superiores de tecnologia, pesquisa, extensão e pelas propostas em debate sobre carreira e jornada docente.
As reestruturações de alguns cursos vêm provocando ampla inquietação entre os docentes, evidenciando um cenário de fragilização da formação profissional, esvaziamento pedagógico, desrespeito às instâncias colegiadas e precarização do trabalho docente. As críticas apresentadas não representam resistência à mudança, mas sim uma contestação fundamentada a um processo conduzido de forma centralizada, pouco transparente e desconectada da realidade acadêmica, profissional e institucional das FATECs.
Um dos pontos centrais de preocupação diz respeito à retirada de disciplinas estruturantes, como Matemática, Cálculo, Economia, Finanças, Gestão e Metodologia Científica. Tais componentes não são acessórios: constituem o alicerce do raciocínio lógico, da capacidade analítica, da tomada de decisão e da compreensão sistêmica exigidas dos egressos, especialmente nos cursos das áreas de Exatas e Tecnologia. Substituí-los por uma lógica exclusivamente prática ou por projetos integradores desprovidos de base conceitual sólida representa um empobrecimento da formação, e não sua modernização.
Ainda mais grave é o impacto dessas mudanças sobre cursos cuja formação é regulamentada por conselhos profissionais. A exclusão de disciplinas mínimas exigidas pelo Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia e por legislações específicas coloca em risco a segurança jurídica do diploma, a empregabilidade dos egressos e o próprio compromisso institucional com a legalidade e a responsabilidade social. Trata-se de um problema que extrapola o campo pedagógico e atinge diretamente o direito ao exercício profissional.
Também causa apreensão a ampliação de disciplinas assíncronas, apresentada sem critérios claros, sem projetos-piloto amplamente debatidos e sem avaliações consistentes de impacto. Esse movimento levanta questionamentos legítimos sobre a descaracterização do ensino presencial, a transformação do professor em tutor, a intensificação do trabalho docente e as condições materiais e de infraestrutura necessárias à sua implementação. Flexibilização não pode ser sinônimo de precarização.
No mesmo sentido, professores manifestaram estranhamento diante da contradição entre o discurso institucional de fortalecimento do tripé ensino, pesquisa e extensão e a supressão de disciplinas como Metodologia Científica. Não há produção de conhecimento, formação crítica ou extensão socialmente referenciada sem fundamentos científicos e metodológicos sólidos. Retirar tais componentes é caminhar na direção oposta ao que se anuncia como projeto institucional.
As discussões sobre extensão e curricularização também foram alvo de críticas. Docentes destacaram que o conceito de extensão é plural e historicamente disputado, conforme amplamente debatido em documentos oficiais. Reduzir a extensão a um único viés, sem explicitar a existência de outras concepções muitas delas mais alinhadas à função social da educação superior gera confusões conceituais e esvazia o potencial transformador dessas práticas. A riqueza dos projetos extensionistas reside justamente na liberdade de criação, na diversidade metodológica e na adequação a objetivos e públicos específicos, inclusive no enfrentamento das desigualdades e na promoção da inclusão digital de populações em situação de vulnerabilidade.
Outro ponto sensível refere-se às discussões sobre carreira docente, jornada de trabalho e regimes de tempo parcial, frequentemente tratadas de forma superficial ou evasiva. Professores questionam a ausência de informações claras sobre possíveis mudanças na carreira, a insegurança recorrente quanto ao futuro das HAEs e a sensação de que os debates apresentados na SPAP não dialogam com a realidade concreta vivida nas unidades. Para muitos, o evento pareceu retratar um “universo paralelo”, distante das angústias cotidianas enfrentadas pelos docentes das FATECs.
Todo esse processo de reestruturação e de proposição de mudanças foi conduzido sem a efetiva participação dos colegiados, dos Núcleos Docentes Estruturantes e da comunidade acadêmica, instâncias legítimas de reflexão e construção curricular. A imposição de um “pacote pronto” representa um esvaziamento da autonomia universitária e da gestão democrática, além de desconsiderar trajetórias docentes consolidadas, concursos internos e ampliações indeterminadas, resultando na perda de centenas de aulas e na insegurança profissional de muitos professores.
Ressalta-se, ainda, o desperdício do capital intelectual da própria instituição, que conta com expressivo número de doutores e pós-doutores plenamente capacitados a contribuir técnica e academicamente para qualquer processo sério de reestruturação curricular. Ignorar essa competência interna evidencia uma condução política verticalizada, pouco aberta ao diálogo e à construção coletiva.
Diante desse cenário, as professoras e os professores das FATECs reafirmam: a educação pública de qualidade exige diálogo, participação, fundamentação pedagógica alinhada à realidade das FATECs, respeito às normativas legais e valorização do trabalho docente. Reformar não é reduzir. Modernizar não é esvaziar. Inovar não é precarizar.
Sem diálogo não há qualidade. Sem autonomia não há educação.


